domingo, 30 de julho de 2017

Ainda

Como se estivéssemos submersos
Juntos e segurando a respiração
Afogamos-nos num enorme deserto
De esquecimento, leveza, reparação
Nós passamos dias e dias pedindo
Um olhar da revelação

Eu sou eu, você, você
Mas ainda juntos
Mas ainda 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Incógnita

Eu não sou religioso
Mas me sinto tão movido
Tenho vontade de rezar
Pelo tempo perdido

São os pequenos atrasos
As grandes negligências
É a dor que eu engasgo
É a falta de inteligência

E são as velas que acendemos
No meio duma tempestade
Porque ambos imaginemos
E se nem tudo for a Sua vontade

Não acharemos respostas
Para tão insólita equação
Só se quer desaparecer
Extirpar a dor do coração

E no corredor dum hospital
É a dor que temos à mão
No topo de uma estrela
É alto e pesado o coração

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Por aqui estivemos

Nós andamos pelas ruas
Como se fôssemos realeza
Ainda não amanheceu
Você é sorriso, é tristeza

E quando todos dormem
Você sonha, sonha

Eu dou um passo na lua
Nós cruzamos os dedos
É um salto olímpico
Você cheio de medos

E quando todos dormem
Você sonha, sonha

E todas as coisas mudam
Assumem um ou outro formato
Nós vemos as fotografias
Mas o passado é um contrato

E quando todos dormem
Você sonha, sonha

Nossos cabelos ao vento
Depois nós percebemos
Que quando nada ia bem
Por aqui estivemos

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Fragmento

Cheguei e sentei na cadeira da sala de jantar descompromissado. Já estavam todos presentes.
- Que livro é esse que você anda lendo?
- Macunaíma. Secundei sem emoção.
- Quê? Mais-cu-na-Índia?!
Foram só risos.

Ave Maria

Diz minha vó que havia uma velhinha no interior que morava só. Só, mais um papagaio.
Tinha sempre o cuidado de aparar as asas do bicho para que não voasse e a deixasse sem companhia.
Entretanto, com certa idade, é comum esquecermos as coisas. Não deu outra então: o papagaio acabou fugindo.
A velha ficou triste, estava só. Ficou dias lembrando do bicho, do que ele falava e cantava.
Na verdade, era um papagaio silencioso. Mal falava e também mal cantava. Ela tinha-lhe ensinado, com muito esforço, a cantar ‘Ave Maria’ e era praticamente só isso que cantava.
Semanas passaram e a velhinha sentia mais falta do bicho. Pensava que retornaria a qualquer hora, por isso deixava sempre as janelas abertas.
Começou a tricotar, embora fosse uma atividade da qual não tinha qualquer expertise. Ia para a velha cadeira de balançar e tricotava por horas, sempre olhando as janelas. Naquele dia não foi diferente.
Fazia muito calor. A luz do sol entrava na sala de estar sem nenhuma cortesia. Uma luz branca que, de repente, tornou-se verde.
A velhinha estranhou. Viu a luz verde no chão sem entender muito e, em seguida, ouviu um farfalhado que parecia já conhecer.
Foi até a janela e viu o céu todo verde! Em seguida, ouviu várias vozes em harmonia que cantavam ‘Ave Maria’. Eram vários papagaios! Todos voando e cantando.
A velhinha assistiu ao espetáculo da janela e quando acabou voltou ao tricô. Cheia de idéias.

O Último Momento de Maria Bete

O semblante denunciou, naquela tarde, o incômodo que sentia Maria Bete com o assento do condução. Ela devia só não gostar do amassado que ficava no seu vestido xadrez de linho, pois era fácil perceber que a lotação e a falta de educação dos passageiros não a incomodavam. Era somente o amassado que a importunava.
Maria Bete era uma senhorinha que sempre estava no mesmo ônibus que me levava ao trabalho pela manhã. Sempre bem vestida e perfumada, carregava consigo uma bíblia e um óculos escuro de armação retangular rajada a olho-de-tigre que, quase sempre, usava como tiara para impedir que os cabelos alvos, cacheados e de aspecto vaporoso caíssem sobre a testa enrugada. Era, acima de tudo, elegante.
Todos os dias eu a via sentada no mesmo lugar, ficava a recitar passagens bíblicas ou a cantar canções tristonhas que eram, para mim, um agouro de mau presságio – mas nada de ruim havia acontecido ainda. Era difícil chegar perto de onde ela estava, as pessoas bloqueavam a passagem e eu me contentava em vê-la furtivamente, assim como quem rouba mesmo.
Não sei, na verdade, explicar por que tornei a observá-la. Aconteceu de forma involuntária e periódica. Eu, quando não a via preenchendo a cadeira de costume, sentia-me incomodado pela falta. Meu dia não ia bem e eu pensava no possível encontro de amanhã.
Os dias seguiam e eu ainda, com esmero, a observar aquela senhora que, do longe, despertava-me para o perto. Foi quando, com ônibus vago, consegui, com muita cautela, aproximar-me dela. Nada muito perto, mas também não muito longe. Fiquei próximo o bastante para entender a letra da canção que cantava enfadonhamente. Eu acompanhava o ritmo ditado pela sua voz aveludada quando esse é cessado por uma fala abrupta:
- Senhor quer que eu segure?
Era a primeira vez que eu escutava sua voz natural. O senhor deu as sacolas e ela as encobriu com o corpo cuidadosamente. Cinco minutos depois, ela pediu a bolsa de uma moça que não hesitou em aceitar – apesar de mulheres não entregarem suas bolsas facilmente. Foi fácil perceber que Maria Bete era daqueles passageiros de condução que pediam para segurar tudo que estava por perto e as pessoas, daqueles que não recusavam.
Ela não pediu para segurar minha pasta naquele dia, mas acho que eu não daria. Responderia apaticamente com um sorriso de meia boca: "Não, obrigado". Talvez por desconcerto ou por vaidade. Nem sei.
Noutro dia, mesmo com o ônibus lotado, me aproximei de onde ela estava. A distância era a mesma da do outro dia, eu só queria ouvir o que ela cantava. Uma marchinha de carnaval desafinada! O estranhamento não foi pouco. Não era de costume uma música alegre ser cantada por Maria Bete, não a que eu conhecia. Aproximei-me ainda mais, de modo que pude ver seu rosto melhor, não de um olhar furtivo, mas de um direto, intimidador. Senti que ela notou minha presença.
- Ei, deixe eu segurar sua pasta.
- Claro, muito obrigado.
Não consegui recusar. Entreguei minha pasta de trabalho de couro com uma grande fivela prata com as iniciais de meu nome, um mimo de mamãe, a ela que a deitou em suas coxas acomodando minha bagagem juntamente com a de outros passageiros.
Fiquei, por um vão momento, em alerta e sem nenhuma atitude. Que atitude eu deveria ter? A de um inexpressivo passageiro de ônibus. Mas não era fácil. Eu dirigia, de forma quase involuntária, o olhar para os lábios daquela senhora que gesticulavam aquela melodia com maestria, eu não queria beijá-la, apenas acho que não.
Naquele instante, Maria Bete começou a cantar mais freneticamente a marchinha de carnaval com uma empolgação falsa, ninguém estranhava aquilo, mas eu ficava cada vez mais aflito.
Estava me controlando para não interromper sua canção e perguntar por que não cantava as de costume, mas me controlei: olhei para o teto e tentei não ouvir o que cantava cantarolando mentalmente outra música.
- Ei, senhora, o que é que tá fazendo? Uma mulher perguntou para Maria Bete num tom inconformado.
- Ela está abrindo suas coisas. O senhor sentado ao lado alardeou para todos do ônibus como quem grita "pega ladrão".
De fato, Maria Bete tinha violado a bolsa da moça e já estava com a metade do braço esguio, balançando e sentindo o que havia na bagagem, enquanto os passageiros, inclusive eu, iam ficando indignados com a atitude daquela senhora.
- Senhora, me devolva minhas coisa.
- Pois não, minha filha, pegue. Disse atordoada já fechando e arrumando a bagagem da moça que retomou suas coisas e deslocou-se dali.
As outras pessoas que tinham coisas nas mãos de Maria Bete pediram suas bagagens e afastaram-se dela impressionadas deixando-a sussurrar "por nada" para ninguém, exceto para mim que permaneci como antes impressionado com tudo aquilo.
O percurso longe não findava. Curvas iam e vinham e o subúrbio aparecia e sumia pelas janelas do ônibus, freios e pessoas figuravam em cena com freqüência nauseante.
Uma algazarra mais atrás se formava e os que estavam à frente, incluindo eu, não entendiam bem o que acontecia até que um rapaz moreno com o uniforme de um supermercado falou:
- É um assalto!
E era mesmo. Num instante, três homens armados e munidos de grandes sacolas empurraram a todos e golpearam alguns retirando os seus pertences.
- Continua andando, motorista, se não a gente atira aqui!
Desespero e lástima já haviam sido emanados, quando um dos três já com a sacola cheia de bolsas, celulares, relógios e outros objetos afastou-me para o lado e referiu-se a Maria Bete:
- Anda, senhora, passa essa pasta!
- Meu filho, isso não é seu nem meu. O que você quer com isso?
- Anda, senhora. Quer que eu atire?
Não entendia nada. Aquela senhora que, a pouco tempo, estava com o braço dentro da bolsa de uma moça dizia aquilo para um assaltante armado. Eu, sem ação, disse para entregar, as pessoas do condução reforçavam a mensagem, mas Maria Bete olhava a pasta e a arma do assaltante e parecia entorpecida. Ninguém acreditava naquilo. Eu me perguntava o que aconteceria.
Um dos outros dois, já próximo a porta de descida do ônibus, anunciou:
- Quem não facilitar vai levar chumbo aí, to avisando.
O clima de tensão aumentou. Maria Bete parecia não participar da cena dramática. Eu reforcei:
- Senhora, dê minha pasta a ele, não há nada de importante aí. Nada que eu não possa dar um jeito. Vamos, dê logo, antes que algo de ruim aconteça.
Ela olhou para mim sem entender e continuou imóvel. Tentei puxar minha pasta de volta, mas ela fez força, estava sentada e eu em pé num ônibus em movimento. Ela protegia minha pasta.
Olhei para o assaltante que nos tinha abordado.
- Vamo logo, Erivaldo!
Ele retribuiu o olhar e, em seguida, fechou os olhos com força e atirou. O som do disparo calou muitos outros sons, vozes, gritos, soluços. Todos, atônitos, acompanharam com o olhar os três assaltantes saírem apressados com as sacolas empanturradas, sem levar minha pasta ensangüentada com o sangue de Maria Bete que inevitavelmente estava morta.
- Que cagada que você fez. Gritou furioso um dos assaltes já entrando num carro que devia estar nos acompanhando para dar suporte a esses três.
O motorista estacionou o ônibus e fez as ligações necessárias. Abalados com o acontecido, os passageiros tiveram reações similares, choraram, gritaram, injuriaram. Alguns sentaram na calçada e esperaram outro ônibus, uns saíram a pé sem rumo aparente. Eu fiquei por ali, olhei, com ânsias de vômito, o rosto de Maria Bete e o furo encima da orelha, de onde escorria ainda sangue que tingia seu cabelo alvo.
- Obrigado, Maria Bete.
Dei-lhe esse nome naquele momento, sempre a achei parecida com ele e como não tive oportunidade de descobrir o seu verdadeiro ficou assim mesmo.
Tomei o ônibus junto com os outros passageiros e, logo, cheguei em casa.
Estranhamente nunca mais ouvi falar nesse episódio. Os noticiários locais devem ter ecoado o ocorrido, mas eu não vi. Nem mesmo me procuraram para depor. Os passageiros que presenciaram e que continuavam no ônibus preferiam também não tocar no assunto.

Redação 2009

Todos os animais da fazenda conheciam o cachorro, pois ele sempre aparecia e brincava com todos. Na maioria das vezes, por ter contato com o fazendeiro e com seus parentes, as brincadeiras eram histórias e, até mesmo, encenações de fatos ocorridos com a família.
Entretanto, alguns animais nâo se divertiam tanto. A vaca, que ficava cada vez mais gorda, era amiga do cachorro, mas não gostava das brincadeiras que envolviam o seu dono, pois o respeitava bastante, já que era ele quem a alimentava. Assim, encarava tudo como fofoca de mau gosto.
Certo dia, no estábulo, o cachorro chegou triste dizendo que o fazendeiro ia escolher as vacas gordas para o abate. Apesar de a vaca gorda dizer que era impossível, que o seu dono a amava e a alimentava todo dia por isso, as outras vacas ficaram com medo e já planejavam fugir. O cachorro tentou convencer a amiga a fugir também, dizendo que ajudaria na fuga, mas a vaca não acreditava, achava que tudo era mais uma encenação.
À noite, o estábulo ficou somente com uma vaca gorda, séria, dorminhoca e que teve um triste fim.